Notícias | Berlim, 19/04/2017

“A BMG está no caminho para se tornar all-rounder”

Sejam os Rolling Stones ou Scorpions, Black Sabbath ou Iron Maiden, Jean Michel Jarre ou Peter Maffay, parece que as grandes estrelas de ontem são a chave do sucesso para uma companhia musical do presente e do futuro: a BMG. "A importância de um músico de longa data é muito mais interessante para nós – e mais lucrativo, mais do que qualquer artista de apenas um só sucesso”, diz Hartwig Masuch, que conhece o negócio musical melhor do que qualquer outra pessoa. Na entrevista abaixo, o fundador e CEO da BMG falou sobre o começo de 2017, ano que, para ele, há grandes expectativas, e também sobre o caminho da BMG como o novo modelo de companhia musical.

O acordo com Nickelback e a aquisição do BBR Music Group no final de janeiro, após um acordo de exclusividade com o Netflix e a criação da Masuch, agência de biblioteca musical, no início de fevereiro, a BMG começou 2017 voando alto. Quais foram as causas? E, acima de tudo, para onde a companhia deverá seguir a partir daqui?

Hartwig Masuch:
Começamos o ano fortes - e realmente esse foi apenas o começo. As coisas continuarão assim nas próximas semanas e meses. Claro, não podemos comentar sobre os artistas que em breve se juntarão a nós. Mas uma coisa é certa: nove anos após sua fundação, a BMG chegou ao mundo da música para sempre e está ganhando velocidade agora. Hoje, os artistas estão mostrando um interesse por nós que antes eram para as maiores do setor: Sony ou Universal. No entanto, cada vez mais estão escolhendo a BMG porque temos provado que podemos construir carreiras globais. O princípio é óbvio: o sucesso gera sucesso. Quanto mais músicos triunfarem com a BMG, mais outros virão crescer ao nosso lado.

... ou, na maioria dos casos, para permanecer grande. Como é que tantos artistas da BMG, desde Stones e Scorpions até Jean-Michel Jarre, estão no negócio há tanto tempo?

HM:
À primeira vista pode parecer surpreendente, do lado de fora o negócio musical parece girar em torno de grandes sucessos. Mas as aparências enganam. O que conta é a relevância e as raízes do artista e sua música. E isso pode ser comprovado, seja com shows esgotados de veteranos da música ou com o fato de que 70 por cento de todo o streaming no Spotify são "deep catalogue", ou seja, músicas de décadas passadas. A propósito, isso vale para toda a indústria: 70 por cento das receitas são geradas com músicos já estabelecidos, 30 por cento com novos. Para você ter uma ideia, em um mês, as receitas de todas as músicas do Top 50, juntas, representam apenas 3 por cento do negócio musical nos EUA.

Então tudo isso tem nada a ver com a nostalgia de um administrador de música que acompanha muitas dessas estrelas?

HM:
Todos aqui na BMG amam música. Eu não sou uma exceção, claro. Estou feliz por trabalhar com alguns ídolos da minha juventude. Cada década criou seus cinco ou seis ícones musicais e muitos deles estão conosco hoje. No entanto, devemos entender tudo isso racionalmente como um negócio: observamos que o público com mais de 40 anos possui mais dinheiro e também gasta mais com música. Ou seja, seu gosto musical é mais importante para nós do que adolescentes, que mudam a cada minuto. 

A geração dos mais de 40 anos está no processo de redescobrir a música?

HM:
Podemos dizer que sim – e temos que agradecer à digitalização. Usando as funções de pesquisa e algoritmos de serviços de streaming, qualquer um pode compilar uma lista dos grandes sucessos de sua juventude em segundos. Isso também deixa claro que, em nossa era, o gosto musical do ouvinte determina sozinho a venda. A indústria fonográfica perdeu o poder de decisão sobre esta questão porque não é mais relevante qual música ela produz, lança um disco e o coloca no mercado. Nada disso importa hoje em dia.

...mas o modelo de negócio da BMG se baseia precisamente nesta situação?

HM:
A BMG é a primeira empresa musical totalmente digital do mundo. Pensamos digitalmente e agimos digitalmente. Assim como globalmente, com rapidez e flexibilidade, mas, acima de tudo, sempre representando o interesse do artista. Eu gosto de lembrar que a BMG foi fundada no mesmo ano que o Spotify, bem na época em que o streaming nasceu. Este é o nosso mundo, não a mídia física. Esse também é o futuro da música. Hoje ninguém duvida mais disso.

Desde 2008, a BMG conquistou o negócio musical com essa atitude, no entanto a companhia já começou a olhar cada vez mais para o negócio das gravações. Por quê?

HM:
Porque o negócio de gravações musicais está cada vez mais sendo executado de acordo com os mecanismos de editoração musical, devido aos muitos canais de monetização, geralmente digitais. Ambos os negócios operam em todo o mundo, digitalmente e sem meios sonoros físicos. Além disso, os limites entre os dois estão cada vez mais desfocados. No entanto, e esse é o X da questão, as receitas no negócio das gravações musicais são de oito a dez vezes maiores do que na editoração de músicas. É muito atraente para nós.

Então a BMG está caminhando de editora musical para uma all-rounder...

HM:
Sim, isso é verdade. Acredito que as gravações vão se tornar cada vez mais importantes para nós, vão chegar a 50 ou mesmo 60 por cento do nosso negócio. Os artistas estão felizes. Na verdade, eles pedem um provedor que ofereça todos os serviços, “all-round”, ou seja, um pacote com "tudo incluso". E, com a gente, um único artista trabalha com um colaborador. Confiança mútua é crucial.

Mas se a companhia vai ser tornar um “all-rounder”, por que o maior contrato de gravação na história da BMG foi com o BBR Music Group, um selo de música country?

HM:
Há três boas razões para isso: primeiro porque este negócio expande nossa presença em um segmento atraente do mercado musical mais importante do mundo. Em segundo lugar, porque o a música country tem uma enorme base de fãs em todo o mundo, muito além das fronteiras dos EUA, que podemos alcançar digitalmente como nenhuma outra companhia musical. E, terceiro, porque o country não é mais country. O country atual, do tipo que o BBR faz, mudou para o rock. Enquanto a música urbana e pop tem sua casa em Nova York, Nashville está cada vez mais se tornando um ímã para os artistas de rock. É tanto provável encontrar um Jon Bon Jovi no estúdio lá quanto o Jason Aldean, um dos músicos mais bem-sucedidos do país. Aldean está assinado com o BBR Music - e sua música, também, muitas vezes tem mais em comum com rock do que com o country. Aliás, o mesmo é verdade para estrelas como Taylor Swift.

Qual o papel dos Estados Unidos para a BMG em termos gerais?

HM:
Metade de nossas receitas vêm dos Estados Unidos. Por outro lado, o mercado norte-americano é extremamente importante para os artistas, há uma mudança clara ocorrendo do Reino Unido para a América do Norte. O ponto de partida de um artista para o sucesso mundial hoje é os EUA. Isso vale tanto para música quanto para os filmes. Para o nosso negócio internacional, o Reino Unido continua a ser o número dois, seguido da Austrália.

E Nashville, no Tennessee, está a caminho de se tornar a capital musical dos EUA?

HM
: É assim que eu vejo. A vida em Nova York acaba é cara para muitos artistas. Nashville, por outro lado, vem seduzindo-os durante vários anos: com um ambiente mais favorável e uma infraestrutura perfeita para a música. Existem estúdios de ponta, cada vez mais produtores e companhias musicais estão se concentrando em Nashville. A cena criativa está mudando para lá – e nós, BMG, estamos mudando com eles.